Artefatos em TC: reconhecer, entender e reduzir
Nem toda mancha ou faixa na imagem é doença — parte é artefato, criada pelo próprio processo de aquisição. Saber diferenciar e reduzir cada tipo é uma habilidade técnica que se treina.
Artefato é qualquer estrutura na imagem que não corresponde ao objeto real que você examinou. Na TC eles aparecem porque a reconstrução assume um mundo ideal — feixe monoenergético, detectores idênticos, paciente imóvel, objeto menor que o campo — e a realidade viola essas premissas. O primeiro passo é reconhecer o padrão; o segundo é agir sobre a causa. Os valores citados aqui são típicos e variam por serviço, equipamento e protocolo.
Endurecimento do feixe (beam hardening)
O feixe de raios X é policromático: tem fótons de várias energias. Ao atravessar tecido, os fótons de baixa energia são absorvidos primeiro, então o feixe que sai fica "mais duro" (energia média maior). A reconstrução não conta com isso e erra a atenuação. Você vê dois padrões clássicos: cupping — o centro de um objeto uniforme fica mais escuro que as bordas — e faixas escuras entre estruturas muito densas, como entre os ossos petrosos na fossa posterior (as "bandas de Hounsfield"). O que fazer: usar a correção de beam hardening do fabricante (quase sempre ativa por padrão), escolher o campo de visão e o filtro (bow-tie) adequados à região, e lembrar que kVp mais alto endurece menos relativamente. A TC de dupla energia e a de contagem de fótons reduzem muito esse artefato por trabalharem com informação espectral.
Streak (faixa) por metal e por movimento
Artefato em faixa são linhas claras e escuras que cruzam a imagem. Duas causas dominam. Metal (próteses, clipes, amálgama, marca-passo): o objeto é tão denso que satura o sinal e gera dados inconsistentes, produzindo streaks radiais intensos. Movimento: paciente, respiração ou batimento deslocam a anatomia entre as projeções e a retroprojeção "borra" em faixas. Para metal: remova tudo o que for removível (brincos, próteses dentárias móveis, eletrodos fora do campo), angule o gantry para tirar o metal do plano de interesse quando possível, aumente kVp e mAs para dar mais penetração e use os algoritmos de redução de artefato metálico (MAR) do equipamento. Para movimento: explique e imobilize, encurte o tempo de rotação, use pitch adequado e, no tórax/coração, sincronização respiratória e gating cardíaco (ECG).
Anel (ring), volume parcial e efeito de borda
O artefato em anel aparece como círculos concêntricos centrados no isocentro. A causa é um detector (ou canal) descalibrado ou defeituoso: aquele elemento lê sempre um valor deslocado e, com a rotação, projeta um anel. Aqui a ação é do serviço e da engenharia — calibração de ar periódica, testes de constância e manutenção; se o anel persiste, acione o suporte. O volume parcial ocorre quando um voxel contém mais de um tecido: o valor de HU vira uma média, borrando pequenas estruturas e criando densidades "falsas" nas transições (por exemplo, entre osso e ar). Reduza usando cortes mais finos. O efeito de borda é parente próximo: nas interfaces de altíssimo contraste (osso/partes moles, contraste/parede), o kernel realça o contorno e pode gerar halo ou sub/superestimativa da densidade na margem — escolher um kernel menos agressivo suaviza.
Escada e windmill (helicoidal)
Na aquisição helicoidal, a interpolação entre voltas cria dois padrões. O artefato em escada (stair-step) aparece nas reformatações e no 3D como degraus em contornos que deveriam ser lisos — típico de cortes grossos e reconstrução espaçada. O windmill (cata-vento) são raios que giram ao rolar as fatias, ligados ao número de canais e ao pitch. O que fazer: reconstruir com cortes finos e sobrepostos (aproveitando aquisição isotrópica), ajustar o pitch e o incremento de reconstrução, e usar o algoritmo helicoidal do fabricante. Vale a mesma lógica da reconstrução multiplanar: quanto mais fino e denso o volume, menos degraus.
Tabela de bolso
| Artefato | Causa física | O que fazer |
|---|---|---|
| Beam hardening (cupping / faixas) | Feixe policromático "endurece" ao atravessar denso | Correção do fabricante, filtro bow-tie/FOV certo, kVp maior, dupla energia |
| Streak metálico | Objeto denso satura e gera dados inconsistentes | Remover metal, angular gantry, ↑kVp/↑mAs, algoritmo MAR |
| Streak por movimento | Anatomia se desloca entre projeções | Imobilizar, rotação rápida, gating respiratório/ECG |
| Anel (ring) | Detector/canal descalibrado ou defeituoso | Calibração de ar, testes de constância, manutenção |
| Volume parcial | Voxel com mais de um tecido → HU médio | Cortes mais finos |
| Efeito de borda | Kernel realça interface de alto contraste | Kernel mais suave, revisar janela |
| Escada / windmill | Interpolação helicoidal, pitch e cortes grossos | Cortes finos sobrepostos, ajustar pitch/incremento |
Uma boa parte da prevenção acontece antes da varredura: posicionar o paciente no isocentro, retirar metal, explicar a apneia, escolher FOV e kernel coerentes com a pergunta clínica. A garantia da qualidade — exigida pela ANVISA RDC 611/2022 e detalhada para TC na IN 93/2021, com testes de constância que o serviço executa — é o que mantém o anel e o cupping sob controle no dia a dia. Reconhecer o artefato evita o pior erro: confundir uma faixa técnica com achado, ou refazer o exame (e a dose) sem necessidade.
Erros comuns
- Interpretar streak metálico ou faixa de beam hardening como lesão real.
- Não remover metal removível (brincos, prótese dentária, eletrodos) antes de varrer.
- Esperar reformatação lisa a partir de cortes grossos e culpar o software pela "escada".
- Aumentar dose às cegas quando o problema é calibração de detector (anel) — isso é manutenção, não mAs.
- Esquecer o gating respiratório/cardíaco em região que se move e atribuir o borrão ao paciente "que não colaborou".
Pratique agora
Abra o estudo de tórax no Reconstrutor, reconstrua o coronal em cortes finos e observe onde o movimento e as bordas de alto contraste deixam suas marcas na imagem.