Protocolo de RM de Crânio: como planejar cada série
Um exame de crânio bem-feito começa antes da primeira sequência: cabeça bem posicionada, cortes angulados a uma referência anatômica e cobertura do vértice ao forame magno. Veja o passo a passo do planejamento — e por que cada escolha importa.
A RM de crânio (ou de encéfalo) é o exame de neuroimagem mais pedido na rotina, e o que separa um estudo limpo de um estudo torto quase nunca é a máquina: é o planejamento. Cabeça alinhada, cortes angulados a uma referência anatômica reprodutível e cobertura completa fazem com que dois exames do mesmo paciente — hoje e daqui a seis meses — sejam comparáveis. Este guia mostra a lógica do planejamento plano a plano e a rotina de sequências. É material educacional para técnicos, tecnólogos e estudantes: não substitui o protocolo do seu serviço nem a orientação do fabricante.
Antes de começar: indicações e o que muda
A rotina básica de crânio serve para uma lista enorme de perguntas clínicas — cefaleia investigada, crise convulsiva, rebaixamento, suspeita de lesão expansiva, doença desmielinizante, demência, trauma não agudo. O esqueleto do planejamento é o mesmo em todas; o que muda é o acréscimo de séries e o uso ou não de gadolínio. Ao longo do guia aponto onde a indicação altera a receita, mas casos específicos (AVC agudo, sela/hipófise, órbitas, ouvido interno) ganham protocolos próprios nesta trilha.
Bobina e posicionamento
Use a bobina de crânio (head coil / head-neck). O posicionamento é metade do resultado:
- Decúbito dorsal, cabeça neutra dentro da bobina, sem rotação nem inclinação — os dois lados do rosto simétricos em relação ao plano médio.
- Queixo levemente para baixo, aproximando o plano orbitomeatal da vertical, o que facilita angular os axiais depois.
- Centralize o feixe/luz de referência na glabela (entre as sobrancelhas) e trave a linha média com a luz sagital.
- Imobilize com almofadas laterais e ofereça proteção auricular — a RM é ruidosa. Explique o exame: o principal inimigo da imagem de crânio é o movimento.
Uma cabeça torta na bobina se paga caro depois: nenhum ajuste de corte corrige totalmente uma rotação grosseira, e os lobos temporais saem assimétricos.
Localizadores (o ponto de partida)
Todo o planejamento se apoia no localizador em três planos (o survey/scout). A partir dele você não "chuta" ângulos: usa marcos anatômicos visíveis. As duas referências que sustentam o crânio inteiro são a linha do corpo caloso (para os axiais) e a fissura inter-hemisférica, ou linha média (para sagitais e coronais).
Planejando os cortes AXIAIS
Os axiais são planejados na imagem sagital mediana. A convenção mais reprodutível é angular o bloco paralelo à linha que une o joelho (genu) e o esplênio do corpo caloso — a "linha calosa". Ela é fácil de achar, é estável entre pacientes e mantém a simetria dos ventrículos e dos lobos temporais. (Alguns serviços usam a linha CA–CP, comissura anterior–posterior; o princípio é o mesmo: uma referência interna, não a borda da mesa.)
A cobertura vai do vértice até o forame magno (base do crânio), sem deixar buraco no topo — erro clássico é cortar o vértice. Confira a simetria na imagem coronal: os cortes devem sair retos, com os dois lados do encéfalo no mesmo nível.
Planejando SAGITAIS e CORONAIS
As sagitais são planejadas na imagem axial: alinhe o bloco paralelo à fissura inter-hemisférica (a linha média que separa os dois hemisférios). É esse passo que corrige a rotação da cabeça — você segue a anatomia do paciente, não a borda da mesa. Centralize o bloco na linha média e cubra de orelha a orelha.
As coronais saem perpendiculares a essa referência (perpendiculares à linha calosa dos axiais / à linha média). Confira na axial que os cortes ficam simétricos. Em indicações específicas a angulação coronal muda: na investigação de epilepsia do lobo temporal, por exemplo, usam-se coronais oblíquas perpendiculares ao longo eixo do hipocampo, com cortes finos.
A rotina de sequências
Com os planos definidos, a rotina básica de crânio combina ponderações que se complementam. Uma receita típica — que varia por serviço, campo magnético e fabricante:
| Série | Plano | Por que entra |
|---|---|---|
| T1 (ou 3D T1) | Sagital | Anatomia e visão geral da linha média; base para comparar o pós-contraste |
| T2 | Axial | Patologia e edema em geral; boa leitura dos ventrículos e sulcos |
| FLAIR | Axial (ou 3D) | Líquor apagado → lesões periventriculares e da substância branca saltam |
| DWI / ADC | Axial | Restrição à difusão — indispensável no AVC isquêmico agudo (DWI clara + ADC escuro) |
| SWI / T2* / GRE | Axial | Suscetibilidade — sangue, ferro e calcificação ficam escuros (blooming) |
| T1 pós-gadolínio | Axial · coronal · sagital | Quando indicado: realça quebra de barreira, tumor, infecção/inflamação |
Se a pergunta clínica é esclerose múltipla/desmielinização, valoriza-se o FLAIR (muitas vezes sagital ou 3D) para as lesões calosas e justacorticais. Em demência, entram cortes coronais para avaliar o hipocampo. Em tumor ou infecção, o pós-gadolínio nos três planos é o centro do exame. A base, porém, é sempre a mesma — e o entendimento do que cada sequência faz está no guia de sequências de RM.
Veja a mesma cabeça em cada ponderação — repare como o que fica claro ou escuro muda de uma para a outra:
T1 · anatomia; líquor escuro
T2 · líquor claro
FLAIR · líquor apagado
DWI (b1000) · difusão
SWI · suscetibilidade
T1 pós-gadolínio · realceArmadilhas comuns
- Cabeça torta não corrigida: lobos temporais e ventrículos saem assimétricos — alinhe as sagitais à fissura inter-hemisférica.
- Axiais "no olho", sem referência: angule pela linha calosa (ou CA–CP), nunca pela borda da mesa.
- Cortar o vértice: a cobertura vai do topo do crânio ao forame magno; confira o limite superior.
- Movimento: explique o exame, imobilize e priorize a DWI/sequências rápidas se o paciente for pouco colaborativo.
- Esquecer proteção auricular e a segurança de RM — triagem de implantes e objetos é pré-requisito (veja segurança em RM).
- Comparar com exame antigo sem replicar a angulação: referências internas iguais = estudos comparáveis.
Checklist rápido
- Bobina de crânio, decúbito dorsal, cabeça neutra e centralizada na glabela.
- Proteção auricular + triagem de segurança conferidas.
- Localizador em três planos adquirido.
- Axiais paralelos à linha calosa, do vértice ao forame magno.
- Sagitais paralelas à linha média (rotação corrigida); coronais perpendiculares.
- Simetria conferida na coronal e na axial.
- Rotina T1/T2/FLAIR/DWI/SWI; pós-gadolínio se indicado, nos três planos.
E o simulador, que é de TC?
O Reconstrutor do MPR Trainer trabalha hoje com casos de tomografia, mas o músculo que ele treina é exatamente o que você usa ao planejar e ler uma RM de crânio: reconhecer estruturas em axial, coronal e sagital, entender relações crânio-caudais e montar o volume na cabeça. Quem enxerga a linha calosa e a linha média num volume de TC angula um crânio de RM com muito mais segurança.
Treine o raciocínio espacial
Abra o Reconstrutor e pratique em casos DICOM reais nos quatro planos, com janelas vivas e medições. É o hábito que transfere direto para o planejamento de RM.