Protocolo de RM no AVC agudo: a rotina rápida com DWI
No acidente vascular cerebral, tempo é cérebro. A RM não precisa ser longa: um punhado de sequências, com a difusão no centro, responde as perguntas que mudam a conduta. Veja a lógica da rotina enxuta — o que adquirir, em que ordem e por quê.
No acidente vascular cerebral (AVC) isquêmico agudo, cada minuto conta: a máxima "tempo é cérebro" vale para a decisão de trombólise e trombectomia. A tomografia sem contraste costuma ser o primeiro exame (é rápida e exclui hemorragia), mas a ressonância tem uma arma que a TC não tem nas primeiras horas: a difusão (DWI), que acende o infarto minutos após a oclusão, quando a TC ainda está normal. Onde o serviço usa RM no fluxo do AVC, o protocolo precisa ser curto e decisivo. Este guia mostra a lógica da rotina rápida. É material educacional para técnicos, tecnólogos e estudantes: não substitui o protocolo do seu serviço, o fluxo do "código AVC" nem a decisão médica.
Quando a RM entra no AVC
A RM é chamada em cenários típicos: confirmar isquemia quando a TC está normal mas a clínica é forte; datar o evento no AVC de horário desconhecido ou "ao acordar" (wake-up stroke); diferenciar infarto agudo de lesões antigas; e mapear território e vaso ocluído antes de decidir a terapia. O ponto prático para quem opera a máquina: quando o pedido é "AVC agudo", o objetivo é entregar a difusão o quanto antes e não perder o paciente para movimento ou para uma fila de sequências longas.
Antes de começar: segurança e agilidade
- Triagem de segurança de RM é inegociável, mesmo com pressa — implantes, marca-passo, corpos estranhos. Um paciente com AVC pode não conseguir responder; confirme com acompanhante/prontuário (veja segurança em RM).
- Bobina de crânio, decúbito dorsal, cabeça neutra e centralizada — o posicionamento é o mesmo do crânio de rotina.
- Priorize a velocidade: paciente com déficit agudo colabora pouco e pode piorar. Adquira primeiro o que decide conduta (a DWI) e deixe o opcional para o fim.
- Proteção auricular e explicação breve reduzem movimento — o principal inimigo de um estudo rápido.
A rotina enxuta: o que adquirir e em que ordem
Um protocolo de AVC não precisa das dez sequências do crânio completo. Uma sequência de prioridades típica — que varia por serviço, campo magnético e fabricante:
| # | Série | Responde |
|---|---|---|
| 1 | DWI + ADC (axial) | Há infarto agudo? Qual território e extensão? É o centro do exame. |
| 2 | SWI / T2* / GRE (axial) | Tem hemorragia? (contraindica trombólise) Sinal do vaso/trombo, micro-sangramentos. |
| 3 | FLAIR (axial ou 3D) | A lesão já "apareceu"? Compara com a DWI para estimar o tempo; mostra lesões antigas. |
| 4 | T2 (axial) | Anatomia, doença de pequenos vasos, diagnósticos alternativos. |
| 5 | Angio-RM (TOF, opcional) | Oclusão de grande vaso? Mapeia a árvore arterial sem contraste. |
Muitos serviços fecham um "protocolo de AVC" em torno de 5 a 7 minutos com esse núcleo. Se o paciente está muito agitado, a regra é simples: garanta a DWI — ela sozinha já muda a conduta.
O par que decide: DWI e ADC
A difusão mede o movimento livre das moléculas de água. No infarto agudo, a isquemia trava a bomba de sódio e potássio, a água entra nas células (edema citotóxico) e o movimento fica restrito. O achado clássico é o par:
- DWI (b1000) clara — a área restrita brilha;
- ADC escuro — o mapa de coeficiente de difusão confirma a restrição verdadeira (valor baixo).
Olhar os dois juntos é obrigatório. Uma lesão que brilha na DWI mas também é clara no ADC não é restrição aguda: é o "T2 shine-through" (o sinal T2 vazando para a imagem de difusão), típico de lesão antiga. Restrição de verdade = DWI clara + ADC escuro. Entenda o mecanismo no guia de sequências de RM.
DWI (b1000) — a restrição fica clara
ADC — a restrição fica escuraEstimando o tempo: o mismatch DWI-FLAIR
A DWI acende em minutos; o FLAIR só torna o infarto visível depois de algumas horas. Essa defasagem vira ferramenta: uma lesão positiva na DWI e ainda invisível no FLAIR (o "mismatch DWI-FLAIR") sugere um evento recente — em geral dentro da janela em que a trombólise pode ser considerada. É por isso que o FLAIR entra na rotina rápida mesmo sem contraste: no AVC de horário desconhecido ou ao acordar, esse par ajuda o médico a decidir se ainda dá tempo de tratar. A leitura e a decisão são clínicas — o papel do técnico é entregar as duas séries alinhadas e sem movimento, na mesma angulação, para que a comparação seja válida.
Quando acrescentar
O núcleo resolve a maioria dos casos; alguns pedem mais:
- SWI/GRE nunca deve faltar quando se cogita trombólise — é o detector de sangue (a hemorragia contraindica o trombolítico) e pode mostrar o sinal do vaso suscetível (o trombo escurecido) e micro-sangramentos.
- Angio-RM (TOF) quando se investiga oclusão de grande vaso, candidata a trombectomia — mapeia a árvore arterial sem contraste.
- Perfusão (PWI), onde disponível, para estimar o tecido em risco (a penumbra) pelo descompasso entre a área com déficit de perfusão e o núcleo já infartado da DWI — usada para estender a janela de tratamento em serviços selecionados.
- T1 e pós-gadolínio não fazem parte da rotina hiperaguda; entram quando o diagnóstico diferencial (tumor, infecção) exige.
Planejamento dos cortes
Os axiais de difusão seguem a mesma lógica do crânio de rotina: paralelos à linha do corpo caloso (ou à linha CA–CP), cobrindo do vértice ao forame magno, com as sagitais/coronais de apoio alinhadas à linha média. O detalhe do alinhamento plano a plano — com diagramas — está no protocolo de RM de crânio. Aqui a diferença é de prioridade, não de geometria: menos séries, adquiridas na ordem que decide conduta.
Armadilhas comuns
- Ler a DWI sem o ADC: uma lesão antiga brilha na DWI por shine-through — só o ADC escuro confirma restrição aguda.
- Pular a sequência de suscetibilidade: sem SWI/GRE você pode não ver a hemorragia — informação que muda tudo antes de trombolisar.
- Alongar o exame: empilhar sequências longas num paciente que piora custa a difusão. Adquira o núcleo primeiro.
- DWI e FLAIR em angulações diferentes: inviabiliza o mismatch — mantenha o mesmo plano e cobertura.
- Movimento: déficit agudo = pouca colaboração; explique, imobilize e use as sequências mais rápidas.
- Esquecer a triagem de segurança na pressa — ela vale mesmo no código AVC.
Checklist rápido
- Triagem de segurança de RM confirmada (mesmo com o paciente sem responder).
- Bobina de crânio, cabeça neutra e centralizada; proteção auricular.
- DWI + ADC primeiro — o que decide conduta.
- SWI/GRE para excluir hemorragia antes de cogitar trombólise.
- FLAIR alinhada à DWI (mismatch para estimar o tempo).
- T2 para contexto; angio-RM/perfusão conforme a pergunta clínica.
- Sempre ler DWI com o ADC — restrição = clara na DWI + escura no ADC.
E o simulador, que é de TC?
O Reconstrutor do MPR Trainer trabalha hoje com casos de tomografia, mas o músculo que ele treina — reconhecer territórios vasculares e estruturas em axial, coronal e sagital e montar o volume na cabeça — é o mesmo que você usa para localizar um infarto na difusão e conferir se a cobertura pegou todo o encéfalo. Quem lê volume com segurança perde menos tempo na sala.
Treine o raciocínio espacial
Abra o Reconstrutor e pratique em casos DICOM reais nos quatro planos, com janelas vivas e medições. É o hábito que transfere direto para a leitura de uma difusão.