Protocolo de RM da face e maciço facial: partes moles e disseminação perineural
Na face, a gordura é aliada e vilã: os planos de gordura desenham a anatomia no T1, mas escondem o realce quando não são saturados. O exame se equilibra entre uma série sem saturação e várias com — e fica de olho num caminho silencioso do tumor: os nervos. Veja como se planeja.
A RM do maciço facial avalia as partes moles que a tomografia não caracteriza bem: massas da face, cavidade nasal e seios paranasais, cavidade oral, glândulas salivares e a extensão dessas lesões para a órbita, a base do crânio e o espaço mastigador. O fio condutor técnico é o contraste da gordura: o T1 sem saturação lê os planos de gordura (e sua obliteração é um sinal precoce de invasão), enquanto as séries que procuram lesão e realce pedem gordura suprimida. E há um alvo que exige atenção: a disseminação perineural. Este guia mostra a lógica do planejamento. É material educacional para técnicos, tecnólogos e estudantes: não substitui o protocolo do seu serviço nem a orientação do fabricante.
Quando esse protocolo é pedido
- Tumores sinonasais e da cavidade oral — extensão para órbita, base do crânio, fossa pterigopalatina.
- Massas de partes moles da face; lesões das glândulas salivares (parótida, submandibular).
- Suspeita de disseminação perineural ao longo de V2 e V3 (nervo trigêmeo).
- Diferenciar tumor de secreção retida nos seios; caracterizar lesões indeterminadas na TC.
O eixo do exame: gordura como contraste
- T1 sem saturação de gordura: mostra a anatomia e os planos de gordura — a gordura clara contorna músculos, forames e a fossa pterigopalatina. A obliteração desses planos por tecido de sinal intermediário é um sinal de invasão/perineural.
- T2 com saturação (ou STIR): edema e lesões saltam; ajuda a separar tumor (sinal intermediário) de secreção retida (muito clara em T2).
- T1 pós-gadolínio com saturação: o realce da lesão e o realce/espessamento de um nervo na disseminação perineural.
- DWI: caracteriza celularidade e ajuda em linfonodos e recidiva.
Disseminação perineural: o caminho silencioso
Alguns tumores da face (carcinomas cutâneos, adenoide cístico das salivares, tumores sinonasais) caminham ao longo dos nervos, sobretudo os ramos do trigêmeo (V2 e V3), podendo alcançar a base do crânio sem uma massa evidente. Os sinais na RM: realce e espessamento do nervo, obliteração da gordura na fossa pterigopalatina e nos forames (redondo, oval), e alargamento desses forames. Por isso o T1 sem saturação (para ler a gordura dos forames) e o pós-contraste com saturação (para ver o realce) são um par inseparável — e a cobertura precisa incluir a base do crânio.
Planejamento e cobertura
- Bobina de crânio/head-neck, cabeça neutra e centralizada.
- FOV ajustado à região de interesse; cortes finos; axial + coronal (o coronal é ótimo para os forames e a base).
- Cobrir da região de interesse até a base do crânio quando houver risco perineural.
- Combinar uma série T1 sem saturação (planos de gordura) com as séries saturadas (T2 e pós-contraste).
Armadilhas comuns
- Não fazer o T1 sem saturação: perde os planos de gordura e o sinal precoce de invasão perineural.
- Saturação de gordura irregular perto de ar/osso (seios, cavidade oral): confira; use STIR quando falhar.
- Não cobrir a base do crânio quando há risco perineural — a doença "sobe" pelo nervo.
- Artefato dentário (amálgama/implantes) degradando a cavidade oral — ajuste plano/parâmetros.
- Movimento (deglutição, respiração) — oriente o paciente.
- Segurança de RM como sempre (veja segurança em RM).
Checklist rápido
- Bobina head-neck, cabeça centralizada; triagem de segurança.
- T1 sem saturação (planos de gordura) + T2 FS/STIR.
- T1 pós-gadolínio com saturação, axial + coronal; DWI se indicado.
- FOV ajustado, cortes finos; coronal para forames e base.
- Estender a cobertura à base do crânio se houver risco perineural (V2/V3).
- Conferir planos de gordura, forames e simetria.
E o simulador, que é de TC?
Ler a face é ler relações: onde está a fossa pterigopalatina, por qual forame passa cada nervo, o que separa a órbita do seio maxilar. Treinar a reconhecer essas estruturas em axial, coronal e sagital no Reconstrutor — e a montar o volume na cabeça — é o que torna possível seguir um nervo pela base do crânio numa RM.
Treine o raciocínio espacial
Abra o Reconstrutor e pratique em casos DICOM reais nos quatro planos, com janelas vivas e medições. É o hábito que transfere direto para mapear a face e a base do crânio.