Protocolo de RM de labirinto e Ménière: a hidropsia endolinfática
Durante décadas, a hidropsia endolinfática — o substrato da doença de Ménière — só era confirmada na autópsia. Hoje a RM a mostra in vivo, com um truque elegante: gadolínio na perilinfa e uma FLAIR adquirida horas depois. Veja como se planeja esse exame.
A doença de Ménière tem como substrato a hidropsia endolinfática — a dilatação do espaço que contém a endolinfa dentro do labirinto membranoso. Por muito tempo isso só se comprovava no exame histopatológico; hoje a RM consegue demonstrar a hidropsia in vivo com uma técnica específica: gadolínio endovenoso e uma FLAIR 3D adquirida tardiamente. Este guia mostra a lógica do exame. É material educacional para técnicos, tecnólogos e estudantes: não substitui o protocolo do seu serviço nem a orientação do fabricante — e a dose/uso do gadolínio nesse contexto é decisão médica.
Quando esse protocolo é pedido
- Doença de Ménière: vertigem episódica, perda auditiva neurossensorial flutuante, zumbido e plenitude aural — para apoiar o diagnóstico e graduar a hidropsia.
- Vertigem e perda auditiva a esclarecer, em que se cogita hidropsia endolinfática.
- Acompanhamento e correlação com o lado sintomático.
Como o labirinto e o conduto auditivo interno são vizinhos, esse exame costuma vir junto do rastreio do CAI / ouvido interno (para excluir schwannoma e avaliar a anatomia).
A anatomia: endolinfa dentro, perilinfa fora
O labirinto membranoso — cóclea, vestíbulo (utrículo e sáculo) e os três canais semicirculares — contém a endolinfa. Ele flutua dentro do labirinto ósseo, banhado pela perilinfa. Na hidropsia, o compartimento endolinfático incha e comprime o perilinfático. O truque da RM é justamente separar esses dois líquidos na imagem.
A técnica que revela a hidropsia
O achado depende de um comportamento do contraste: injetado por via endovenosa, o gadolínio difunde para a perilinfa ao longo de horas, mas não entra na endolinfa. Se adquirirmos uma FLAIR 3D fortemente ponderada no tempo certo, a perilinfa realça (fica clara) e a endolinfa permanece escura. A hidropsia aparece então como um espaço escuro dilatado (a endolinfa aumentada) dentro do labirinto claro.
- Timing: a aquisição é tardia — classicamente ~4 horas após o gadolínio endovenoso (protocolos com dose única ou dupla; uso do contraste conforme decisão médica). Alguns serviços usam gadolínio intratimpânico com aquisição em ~24 h.
- Sequência: FLAIR 3D "pesada" tardia (hT2w-FLAIR). Muitos aparelhos oferecem reconstruções dedicadas — imagens que destacam a perilinfa, imagens que destacam a endolinfa e a subtração "HYDROPS", que aumenta a conspicuidade do compartimento dilatado.
- Alta resolução: cortes finos, FOV pequeno, cobrindo os dois labirintos para comparar.
A rotina de sequências
Uma receita típica — que varia por serviço, campo magnético e fabricante:
| Série | Papel |
|---|---|
| T2 3D de alta resolução (CISS/FIESTA/DRIVE/SPACE) | Anatomia do labirinto e do CAI (o "mapa"); exclui outras lesões |
| 3D FLAIR tardia pós-gadolínio (hT2w-FLAIR) | O centro do exame: perilinfa clara, endolinfa escura → hidropsia |
| Reconstruções HYDROPS (perilinfa / endolinfa / subtração) | Aumentam a conspicuidade do compartimento endolinfático |
| T1 pós-gadolínio (± 3D FS) | Contexto do CAI/APC, realce, diagnóstico diferencial |
Planejamento e cobertura
- Bobina de crânio, cabeça neutra e centralizada — simetria para comparar os dois labirintos.
- FOV pequeno, cortes finos, cobrindo ambos os labirintos (cóclea, vestíbulo, canais).
- Respeitar o atraso entre a injeção e a FLAIR — é o passo que torna o exame possível; organize o fluxo da sala em torno dele.
- Adquira o volume no axial e reformate quando útil (o volume 3D é isotrópico).
Armadilhas comuns
- Errar o timing: FLAIR cedo demais → a perilinfa ainda não realçou; tarde demais → o contraste dispersa. Siga o intervalo do protocolo.
- FOV grande / cortes grossos: o labirinto é milimétrico — a hidropsia some sem alta resolução.
- Não cobrir os dois lados: a comparação lado a lado é parte da leitura.
- Movimento na aquisição longa da FLAIR 3D — explique e imobilize.
- Segurança de RM e contraste: triagem (implantes auditivos!) e uso do gadolínio conforme decisão médica (veja segurança em RM).
Checklist rápido
- Bobina de crânio, cabeça neutra e centralizada; triagem de segurança (implantes).
- T2 3D de alta resolução (anatomia do labirinto/CAI).
- Gadolínio endovenoso e 3D FLAIR tardia no intervalo do protocolo (~4 h).
- Reconstruções HYDROPS quando disponíveis; T1 pós-gadolínio para contexto.
- FOV pequeno, cortes finos, cobrindo os dois labirintos.
- Organizar a agenda para respeitar o atraso da aquisição.
E o simulador, que é de TC?
O labirinto é o extremo da anatomia milimétrica: separar endolinfa de perilinfa exige reconhecer estruturas minúsculas e comparar os dois lados. Treinar a localizar o labirinto e a cóclea em axial, coronal e sagital no Reconstrutor — e a reformatar planos de um volume — prepara o olhar para esse exame de altíssima resolução.
Treine o raciocínio espacial
Abra o Reconstrutor e pratique em casos DICOM reais nos quatro planos, com janelas vivas e medições. É o hábito que transfere direto para a anatomia fina do osso temporal.