Protocolo de RM de abdome superior: fígado, vias biliares e o dinâmico
No abdome superior, o inimigo é o movimento e a arma é o tempo: sequências em apneia e um pós-contraste cronometrado em fases. Some a isso truques só da RM — como separar gordura de ferro numa única aquisição — e você tem um exame que a TC não iguala na caracterização. Veja como se planeja.
A RM de abdome superior caracteriza o fígado, as vias biliares, o pâncreas, o baço e as adrenais com um contraste de tecidos que a tomografia não alcança. Dois desafios organizam tudo: vencer o movimento (respiração, peristalse) com apneias e sincronismos, e cronometrar o dinâmico com gadolínio em fases. Este guia mostra a lógica. É material educacional para técnicos, tecnólogos e estudantes: não substitui o protocolo do seu serviço nem a orientação do fabricante.
Quando esse protocolo é pedido
- Caracterizar lesão hepática focal (cisto, hemangioma, HNF, adenoma, metástase, CHC).
- Vigilância de CHC na cirrose; avaliação de hepatopatia difusa (esteatose, sobrecarga de ferro).
- Vias biliares (colangio-RM): cálculo, estenose, anatomia pré-operatória.
- Pâncreas (massa, pancreatite, cisto/IPMN) e adrenais (adenoma × não-adenoma pelo in/out-phase).
Vencer o movimento
- Bobina de corpo/torso array, paciente confortável; treinar a apneia antes (o exame depende da colaboração).
- Sequências rápidas em apneia; onde não dá, usar navegador respiratório ou disparo respiratório.
- Considerar antiespasmódico para reduzir a peristalse; jejum conforme o serviço.
As sequências e seus truques
Uma receita típica — que varia por serviço, campo magnético e fabricante:
| Série | Papel |
|---|---|
| T2 (HASTE/SSFSE) axial e coronal | Anatomia, líquido/cistos, edema; robusta ao movimento |
| T1 in-phase / out-of-phase (dupla-eco) | Separa gordura (queda de sinal no out-of-phase → esteatose, adenoma) de ferro (queda no in-phase, TE maior) |
| DWI + ADC | Detecção de lesões e nódulos; celularidade |
| Colangio-RM (MRCP) | T2 fortemente ponderado (2D/3D): árvore biliar e ducto pancreático como "mapa" da bile |
| T1 3D FS dinâmico (VIBE/LAVA/THRIVE) | Pré + fases arterial, portal, venosa e tardia após gadolínio |
O dinâmico: cronometrar as fases
O coração da caracterização hepática é o dinâmico: uma máscara pré-contraste e aquisições repetidas nas fases arterial (~20–35 s, quando o CHC e o hemangioma se comportam de forma típica), portal (~60–70 s), venosa/de equilíbrio e tardia. Acertar a fase arterial é o passo mais crítico — cedo ou tarde demais e o padrão de realce se perde. Com contraste hepatobiliar (gadoxetato), há ainda a fase hepatobiliar tardia (~20 min), em que o parênquima funcionante capta e as lesões sem hepatócitos ficam escuras.
Armadilhas comuns
- Errar a fase arterial: é o passo mais crítico do dinâmico — atenção ao timing/bolus tracking.
- Apneia inconsistente: borra o dinâmico e desalinha as fases — treine o paciente antes.
- Trocar in/out-phase: lembre a regra — gordura cai no out-of-phase; ferro cai no in-phase (TE maior).
- Peristalse degradando a MRCP — antiespasmódico ajuda.
- Segurança de RM e contraste (função renal, gadolínio) como sempre (veja segurança em RM).
Checklist rápido
- Torso array; treinar apneia; considerar antiespasmódico; triagem de segurança/contraste.
- T2 (HASTE) axial+coronal; T1 in/out-phase; DWI.
- Colangio-RM quando a pergunta é biliar/pancreática.
- Dinâmico 3D FS: pré + arterial + portal + venosa + tardia (± hepatobiliar).
- Acertar a fase arterial; manter apneias consistentes.
E o simulador, que é de TC?
O abdome superior é raciocínio de anatomia vascular e segmentar em vários planos: onde passa a porta, como se dividem os segmentos hepáticos, por onde corre a via biliar. Treinar a reconhecer esse mapa em axial, coronal e sagital no Reconstrutor ajuda a ler o dinâmico e a colangio com segurança.
Treine o raciocínio espacial
Abra o Reconstrutor e pratique em casos DICOM reais nos quatro planos, com janelas vivas e medições. É o hábito que transfere direto para a anatomia abdominal.