Protocolo de RM de ATM: disco, boca fechada e boca aberta
A articulação temporomandibular é minúscula e se move — e o exame acompanha esse movimento. O segredo é cortar no plano certo do côndilo e repetir o estudo de boca fechada e boca aberta para ver o disco e saber se ele reduz. Veja como se planeja.
A RM é o exame de escolha para a articulação temporomandibular (ATM) porque mostra o que interessa nas disfunções: o disco articular — uma estrutura fibrosa de baixo sinal — e sua posição em relação ao côndilo. Duas ideias organizam todo o protocolo: cortar no plano certo (sagital oblíquo perpendicular ao eixo do côndilo) e repetir o estudo de boca fechada e boca aberta, porque a disfunção do disco é dinâmica. Este guia mostra a lógica do planejamento. É material educacional para técnicos, tecnólogos e estudantes: não substitui o protocolo do seu serviço nem a orientação do fabricante.
Quando esse protocolo é pedido
- Disfunção temporomandibular: dor, estalido, crepitação, travamento (locking) ou limitação de abertura.
- Suspeita de deslocamento do disco — com ou sem redução.
- Alterações degenerativas/inflamatórias (artrite), derrame articular, avaliação pós-tratamento.
A anatomia que guia o corte
O disco normal é biconcavo e de sinal baixo; com a boca fechada, sua banda posterior fica no topo do côndilo — em torno da posição de "12 horas" (a faixa de normalidade costuma ser 11–12 h). Na abertura, o côndilo transla para frente sob a eminência e o disco deve acompanhar. Quando o disco está deslocado (mais comum, anteriormente), avalia-se se ele volta ao lugar na abertura (com redução) ou permanece deslocado (sem redução — associado ao travamento).
Planejando os cortes: o plano do côndilo
- Bobinas de superfície pequenas, uma sobre cada ATM (estudo bilateral); cabeça centralizada.
- Num localizador axial, identifique o longo eixo de cada côndilo (eles quase nunca são paralelos entre si).
- Sagitais oblíquas perpendiculares ao longo eixo do côndilo — é o plano que mostra o disco e as bandas. Planeje cada lado com sua própria angulação.
- Coronais oblíquas paralelas ao longo eixo do côndilo — para o deslocamento médio-lateral do disco.
- Cortes finos e FOV pequeno; a articulação é milimétrica.
Boca fechada e boca aberta
O par fechada × aberta é o que transforma o exame de estático em funcional:
- Boca fechada (em oclusão): define a posição do disco em repouso.
- Boca aberta (com abertura máxima estável, muitas vezes com um dispositivo que mantém a boca aberta): mostra se o côndilo transla e se o disco reduz.
Repita as sagitais oblíquas nas duas condições, no mesmo plano, para comparar. Alguns serviços fazem aquisições em aberturas progressivas (pseudo-dinâmico) para flagrar em que ponto o disco reduz ou volta a deslocar.
A rotina de sequências
Uma receita típica — que varia por serviço, campo magnético e fabricante:
| Série | Plano / condição | Por que entra |
|---|---|---|
| DP / T1 | Sagital oblíqua · boca fechada | Melhor definição do disco e das bandas em repouso |
| DP / T2 | Sagital oblíqua · boca aberta | Translação do côndilo e redução (ou não) do disco |
| T2 | Sagital / coronal oblíqua | Derrame articular e edema (líquido fica claro) |
| DP / T1 | Coronal oblíqua | Deslocamento médio-lateral do disco |
Armadilhas comuns
- Só boca fechada: perde a informação funcional — o par com boca aberta é essencial.
- Obliquidade errada: se o corte não for perpendicular ao côndilo, o disco aparece distorcido; angule cada lado pelo seu eixo.
- Abertura instável: use um apoio/dispositivo para manter a boca aberta parada durante a aquisição.
- FOV grande / cortes grossos: a articulação é minúscula — resolução é tudo.
- Movimento e desconforto: explique o exame; aberturas longas cansam.
- Segurança de RM como sempre (veja segurança em RM).
Checklist rápido
- Bobinas de superfície bilaterais; cabeça centralizada; triagem de segurança.
- Localizador axial → longo eixo de cada côndilo.
- Sagitais oblíquas perpendiculares ao côndilo, cada lado com sua angulação.
- Estudo de boca fechada e boca aberta, mesmo plano.
- Coronal oblíqua para deslocamento médio-lateral; T2 para derrame.
- Cortes finos, FOV pequeno; apoio estável para a abertura.
E o simulador, que é de TC?
A ATM é o exemplo extremo de por que o plano oblíquo importa: cortar perpendicular a um côndilo que aponta para uma direção própria exige entender orientação no volume. Treinar a definir planos oblíquos e a reconhecer estruturas em axial, coronal e sagital no Reconstrutor prepara exatamente esse raciocínio.
Treine o raciocínio espacial
Abra o Reconstrutor e pratique planos oblíquos em casos DICOM reais, com janelas vivas e medições. É o hábito que transfere direto para angular a ATM.