Protocolo de RM de epilepsia: o hipocampo em foco
Na investigação da epilepsia do lobo temporal, a resposta costuma estar num detalhe milimétrico: um hipocampo um pouco menor e mais brilhante que o outro. Encontrar isso depende de um gesto técnico simples e decisivo — cortar perpendicular ao hipocampo.
O protocolo de epilepsia (ou "protocolo de hipocampo") é um exame de crânio dedicado ao lobo temporal mesial. Seu alvo mais comum é a esclerose mesial temporal (EMT) — a causa mais frequente de epilepsia do lobo temporal operável. Tudo no protocolo existe para comparar um hipocampo com o outro em alta resolução. Este guia mostra a lógica. É material educacional para técnicos, tecnólogos e estudantes: não substitui o protocolo do seu serviço, a orientação do fabricante nem a avaliação médica.
Quando esse protocolo é pedido
- Epilepsia do lobo temporal — sobretudo refratária, em avaliação pré-cirúrgica: localizar e lateralizar o foco.
- Suspeita de esclerose mesial temporal: hipocampo atrófico e com sinal alto em T2/FLAIR.
- Investigação de outras lesões epileptogênicas temporais (tumores de baixo grau, displasias, malformações do desenvolvimento cortical).
O alvo: esclerose mesial temporal
A EMT tem uma tríade que a RM procura no hipocampo do lado afetado:
- Perda de volume (atrofia) — o hipocampo fica menor que o contralateral.
- Sinal alto em T2/FLAIR — reflete a gliose.
- Perda da arquitetura interna — apaga-se a estrutura fina do hipocampo.
Como o achado é uma assimetria sutil, o exame precisa ser simétrico e de alta resolução — e cortado no ângulo certo. É aí que entra o planejamento.
Planejando as coronais perpendiculares
O gesto central: planejar as coronais numa sagital (ou usar um volume 3D reformatado), alinhando o bloco perpendicular ao longo eixo do hipocampo. Como o hipocampo é levemente inclinado, essas coronais ficam oblíquas em relação às coronais de rotina. Cortes finos, sem gap, cobrindo toda a extensão do hipocampo (cabeça, corpo e cauda) e simétricos — qualquer rotação da cabeça vira uma falsa assimetria.
A rotina de sequências
Uma receita típica — que varia por serviço, campo magnético e fabricante:
| Série | Papel |
|---|---|
| Coronal T2 de alta resolução ⟂ ao hipocampo | O centro do exame: volume, sinal e arquitetura interna do hipocampo |
| Coronal FLAIR ⟂ ao hipocampo | Realça o sinal alto da gliose (EMT) e outras lesões |
| T1 3D volumétrico (isotrópico) | Anatomia e volumetria; reformata qualquer plano para comparar os lados |
| Axial T2 / FLAIR | Rastreio do restante do encéfalo |
| DWI, SWI, pós-contraste (conforme suspeita) | Complementam quando há lesão a caracterizar |
O par coronal T2 + coronal FLAIR perpendiculares, somado ao 3D volumétrico, é o coração do protocolo.
Lendo os dois lados
- Simetria é a régua: compare hipocampo direito × esquerdo no mesmo corte — tamanho, sinal e desenho interno.
- Volume: um hipocampo atrófico com o corno temporal vizinho alargado reforça a EMT.
- Sinal: hiperssinal em T2/FLAIR no hipocampo menor fecha o padrão.
- A volumetria (manual ou automática, a partir do 3D) ajuda quando a diferença é sutil — mas exige aquisição bem simétrica.
Armadilhas comuns
- Angular errado: coronais que não são perpendiculares ao hipocampo cortam-no obliquamente e criam falsa assimetria. Planeje na sagital, ⟂ ao longo eixo.
- Cabeça torta: rotação/inclinação da cabeça desiguala os dois lados. Centralize e alinhe com cuidado — a simetria é tudo.
- Cortes grossos ou com gap: o hipocampo é milimétrico; sem alta resolução e cobertura contínua, a EMT some.
- Não cobrir cabeça e cauda: a atrofia pode ser focal — cubra o hipocampo inteiro.
- Esquecer a FLAIR coronal: é ela que evidencia o hiperssinal da gliose.
- Movimento nas aquisições finas — oriente e imobilize.
Checklist rápido
- Bobina de crânio, cabeça neutra e centralizada (simetria!); triagem de segurança de RM.
- Coronal T2 alta resolução e coronal FLAIR, ambas ⟂ ao longo eixo do hipocampo.
- Cortes finos, sem gap, cobrindo toda a extensão do hipocampo.
- T1 3D volumétrico isotrópico para volumetria e reformatação.
- Axial T2/FLAIR para o resto do encéfalo; DWI/SWI/contraste conforme a suspeita.
- Interpretação (EMT, lateralização) é do radiologista.
E o simulador, que é de TC?
Cortar perpendicular ao longo eixo de uma estrutura inclinada é raciocínio espacial puro — o mesmo que se faz para o quadril, o punho ou o hipocampo. Treinar a reconhecer o lobo temporal e o hipocampo em axial, coronal e sagital no Reconstrutor, e a reformatar planos oblíquos de um volume, prepara o olho para planejar essas coronais e comparar os dois lados.
Treine o raciocínio espacial
Abra o Reconstrutor e pratique em casos DICOM reais nos quatro planos, com janelas vivas e reformatações oblíquas. É o hábito que faz o corte perpendicular ao hipocampo sair certo e simétrico.