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TC Protocolos de TC · Abdome e pelve · ~10 min de leitura

Protocolo de TC de abdome: as fases de contraste

No tórax, o segredo é a janela. No abdome, é o tempo. A mesma anatomia realça de formas diferentes conforme o contraste circula — e escolher em que momento varrer é o que faz uma lesão aparecer ou desaparecer.

A tomografia de abdome vive das fases de contraste. O iodo injetado na veia percorre artérias → capilares → veias → interstício → rins, e cada órgão tem seu momento de maior realce. Programar a varredura no tempo certo — e, às vezes, em vários tempos — é o coração do protocolo. Este guia mostra a lógica. É material educacional para técnicos, tecnólogos e estudantes: não substitui o protocolo do seu serviço, a orientação do fabricante nem a avaliação médica.

Quando esse protocolo é pedido

  • Dor abdominal a esclarecer, abdome agudo, suspeita de apendicite/diverticulite, obstrução.
  • Caracterização de lesões de fígado, pâncreas, rins, adrenais, baço — onde a curva de realce ao longo das fases define a natureza.
  • Estadiamento oncológico e seguimento.
  • Trato urinário: cálculo (sem contraste), massa renal, uro-TC (fase excretora).
  • Vascular: aneurisma/dissecção da aorta, sangramento ativo (fase arterial), trombose.
  • Trauma abdominal.

Preparo e posicionamento

  • Jejum conforme o serviço; verificar função renal e alergias antes do contraste iodado.
  • Contraste oral quando se quer distender e marcar as alças (avaliação de alça, abscesso, tumor de trato digestivo); em urgência/urolitíase e em protocolos vasculares costuma-se dispensar. Água pode servir como contraste oral neutro.
  • Decúbito dorsal, entrando pela cabeça, braços elevados acima da cabeça (fora do campo).
  • Apneia — em geral em expiração leve/repouso, consistente entre as fases para os cortes casarem.

Cobertura

Programe no scout: para abdome, das cúpulas diafragmáticas às cristas ilíacas; para abdome e pelve, até a sínfise púbica. O fígado sobe atrás da cúpula direita — comece acima dela para não cortar o topo do fígado.

As fases de contraste — a mesma anatomia, tempos diferentes

Depois da injeção por bomba, dispara-se cada fase num atraso escolhido (contado do início da injeção ou por bolus tracking na aorta). Veja a mesma fatia, ao nível do fígado, baço e aorta, nas quatro fases:

TC de abdome axial sem contraste: fígado, baço e aorta em densidade uniforme; a aorta tem a mesma densidade do músculo.Sem contrastelinha de base
Fase arterial: aorta muito brilhante e baço com realce heterogêneo, mosqueado; o fígado ainda pouco realçado.Arterial≈ 25–40 s
Fase portal / venosa: fígado com realce máximo e homogêneo, baço homogêneo, veias visíveis.Portal / venosa≈ 60–80 s
Fase de equilíbrio / tardia: realce se equaliza entre vasos e órgãos, contraste começa a lavar.Equilíbrio≈ 3–5 min
Imagem real de TC — a mesma fatia axial (fígado, baço e aorta) nas quatro fases. Repare: sem contraste a aorta tem a densidade do músculo; na arterial a aorta fica muito clara e o baço mostra o padrão heterogêneo "em zebra"; na portal o fígado atinge o realce máximo e o baço fica homogêneo; no equilíbrio tudo se aproxima (washout). É a curva de realce que caracteriza as lesões.
FaseAtraso típicoO que mostra melhor
Sem contrasteCálculos, calcificações, gordura, hemorragia aguda, densidade basal para comparar
Arterial≈ 25–40 sLesões hipervasculares (CHC, tumor neuroendócrino), mapa arterial, sangramento ativo
Portal / venosa≈ 60–80 sPico do parênquima hepático; maioria das lesões e metástases; estadiamento
Equilíbrio / tardia≈ 3–5 minWashout (ajuda a caracterizar CHC), realce tardio (fibrose, colangiocarcinoma)
Excretora (uro-TC)≈ 5–10 minContraste no sistema coletor e ureteres

Nenhum exame usa todas as fases — cada protocolo escolhe as que respondem à pergunta (e menos fases = menos dose). O bolus tracking (disparar quando o contraste atinge um limiar na aorta) é o que faz a fase arterial cair no momento certo. Mais sobre contraste iodado e timing.

Janela e leitura

O abdome é lido sobretudo em janela de partes moles (WL ≈ 40 · WW ≈ 400). Para lesões hepáticas sutis, uma janela mais estreita (WW menor) aumenta o contraste entre lesão e fígado. E vale sempre uma janela óssea para a coluna e a bacia. Como na TC de tórax, é a mesma aquisição lida em janelas diferentes — não exames refeitos.

Reconstruções: MPR e mais

A aquisição é um volume fino isotrópico; o mesmo dado reformata em qualquer plano:

  • MPR coronal e sagital: mostram a extensão de cima a baixo — rins, ureteres, aorta, alças e a relação entre órgãos.
  • MIP para vasos (aorta e ramos) e curved MPR para "esticar" um vaso ou o ureter tortuoso num plano só.
  • Reconstrução 3D / VR para mapa vascular e planejamento cirúrgico.
Reformatação coronal (MPR) da TC de abdome na fase portal: os dois rins, fígado, baço, coluna vertebral, ossos da bacia e a bexiga.
Imagem real de TC — reformatação coronal (MPR) na fase portal, a partir do volume axial. Num plano só aparecem os dois rins, o fígado, o baço, a coluna e a bexiga — ótimo para ver a extensão craniocaudal, comparar os rins e seguir a aorta e os ureteres.

Variações do protocolo

ProtocoloFases típicas
Abdome de rotinaPortal (± sem contraste conforme a pergunta)
Fígado (dinâmico)Sem contraste + arterial + portal + equilíbrio (caracterizar lesão)
PâncreasFase pancreática/arterial tardia + portal (contraste tumor × parênquima)
Uro-TCSem contraste + (nefrográfica) + excretora — cálculo, massa, via urinária
Entero-TCContraste oral neutro (distensão) + fase entérica/portal — doença de alça
Angio (aorta)Fase arterial com bolus tracking na aorta

Armadilhas comuns

  • Fase errada: caçar lesão hipervascular na fase portal (ela some) ou avaliar washout sem a tardia. Cada pergunta pede sua fase.
  • Timing solto: sem bolus tracking, a arterial cai cedo/tarde e perde o realce. Ajuste ao débito cardíaco do paciente.
  • Apneia inconsistente entre fases: os cortes não casam e a comparação fica falsa. Padronize o comando.
  • Cortar o topo do fígado ou a pelve: programe a cobertura no scout com folga.
  • Excesso de fases: cada fase é dose. Faça só as que respondem à pergunta.
  • Janela larga demais no fígado: lesões de baixo contraste somem — estreite a janela para procurá-las.

Checklist rápido

  • Função renal/alergia checadas; acesso venoso calibroso; bomba injetora.
  • Contraste oral se a pergunta for de alça/víscera oca; decúbito dorsal, braços elevados.
  • Cobertura cúpulas → cristas ilíacas (ou sínfise, se pelve), programada no scout.
  • Escolher as fases pela pergunta; bolus tracking na aorta para a arterial.
  • Apneia consistente entre as fases; aquisição fina isotrópica.
  • Entregar MPR coronal/sagital; MIP/curved MPR para vasos e ureteres.
  • Ler em partes moles (± janela estreita p/ fígado) e óssea. A interpretação é do radiologista.

Treine a curva de realce no Reconstrutor

Reconhecer em que fase você está — aorta clara e baço "em zebra" (arterial), fígado no pico (portal) — é leitura de volume e de densidade. No Reconstrutor você janela ao vivo em casos DICOM reais, mede HU e reformata coronal/sagital: o hábito que faz a lógica das fases virar reflexo.

Leia a densidade, entenda a fase

Abra um caso de abdome no Reconstrutor, meça o realce da aorta e do fígado e reformate o coronal. É a prática que transforma "fase de contraste" em raciocínio.

Abrir o Reconstrutor

Conteúdo educacional. Fases, atrasos (delays), cobertura, valores de janela e uso de contraste oral são convenções típicas e variam por serviço, aparelho e fabricante, e devem ser ajustados ao paciente. Não substitui protocolo institucional, diretriz do fabricante nem avaliação clínica profissional. As imagens são de TC real anonimizada, usadas para fins didáticos.