Angio-TC de carótidas e vertebrais: do arco ao polígono de Willis
É o mapa vascular do AVC. Num único bolus, a angio-TC segue as quatro artérias que irrigam o cérebro — as duas carótidas e as duas vertebrais — da origem no arco aórtico até o polígono de Willis, caçando a estenose que solta o êmbolo.
A angio-TC de carótidas e vertebrais (angio de vasos do pescoço / troncos supra-aórticos) mostra as quatro artérias que sobem ao encéfalo. Como toda angio, é uma aquisição axial fina na fase arterial, lida depois em MIP, curved MPR e 3D. Seu alvo mais comum é a estenose da bifurcação carotídea — a fonte clássica de AVC isquêmico. Este guia mostra a lógica. É material educacional para técnicos, tecnólogos e estudantes: não substitui o protocolo do seu serviço, a orientação do fabricante nem a avaliação médica.
Quando esse protocolo é pedido
- AVC isquêmico / AIT — procurar a fonte: estenose ou oclusão carotídea/vertebral, trombo.
- Sopro cervical, estenose conhecida em seguimento, pré-operatório de endarterectomia/stent.
- Dissecção carotídea ou vertebral (trauma, cefaleia/cervicalgia, Horner).
- Sintomas vertebrobasilares (vertigem, diplopia, ataxia) — avaliar o sistema posterior.
- Aneurisma, malformação, tumor do pescoço com relação vascular.
O timing: pegar a artéria antes da veia
No pescoço, o intervalo entre a artéria encher e a veia jugular encher é curto. A armadilha número um é a contaminação venosa: varrer tarde e as jugulares densas se sobrepõem às carótidas no MIP. Por isso usa-se bolus tracking (ROI no arco/aorta ascendente ou na carótida) com disparo no limiar, capturando o pico arterial. Injeção por bomba, acesso calibroso e flush de soro mantêm o bolus compacto.
Preparo, posicionamento e cobertura
- Decúbito dorsal, cabeça neutra e imóvel; braços ao lado do corpo (no pescoço não se elevam os braços); orientar a não engolir nem falar durante a varredura.
- Retirar prótese dentária removível quando possível — reduz artefato metálico sobre a bifurcação.
- Cobertura do arco aórtico (origem dos troncos supra-aórticos) ao vértice (polígono de Willis) — cobrir o intracraniano é essencial: a lesão pode estar em tandem (pescoço + cabeça).
As quatro artérias
De cada lado sobem duas artérias:
- Carótida comum → bifurca em carótida interna (ACI) — posterolateral, sem ramos no pescoço, vai ao cérebro — e carótida externa (ACE) — anteromedial, com ramos para a face. "Sem ramos no pescoço = é a interna" é a regra que separa as duas.
- Artéria vertebral — sobe pelos forames transversos das vértebras cervicais e se junta à contralateral formando a basilar (sistema posterior).
A imagem-mapa: o MIP do arco ao vértice
O MIP junta o volume num quadro só e a árvore arterial salta: dá para seguir cada vaso da origem no arco até o crânio, num panorama que é a "cara" da angio de pescoço. Como osso e cálcio também são densos, usam-se lajes/remoção de osso — e sempre se volta às fontes para medir.
A bifurcação e a estenose
O ponto crítico é a bifurcação carotídea — onde o ateroma se instala e onde nasce a maioria dos AVC embólicos. A leitura mede o grau de estenose (critério NASCET: luz residual × diâmetro normal da ACI distal) e caracteriza a placa (mole × calcificada). A placa calcificada é uma armadilha: no MIP ela é tão branca quanto o contraste e pode superestimar a estenose — meça na fonte, com curved MPR perpendicular ao vaso.
Reconstruções
- MIP: o panorama e o rastreio da árvore.
- Curved MPR (CPR): desdobra cada carótida/vertebral num plano para medir a estenose ao longo do trajeto (como no protocolo de aorta).
- Remoção de osso / VR: separa o crânio e a coluna dos vasos, útil na junção crânio-cervical e no intracraniano.
Armadilhas comuns
- Contaminação venosa: timing tarde enche a jugular e polui o MIP. Dispare no pico arterial (bolus tracking).
- Placa calcificada: superestima a estenose no MIP — meça na fonte / curved MPR ⟂.
- Confundir ACI × ACE: a interna não tem ramos no pescoço; a externa dá ramos para a face.
- Movimento / deglutição: borra a bifurcação. Oriente a não engolir.
- Artefato de ombro e dentário: endurece o feixe na base do pescoço e na bifurcação — posicione e, se possível, retire próteses.
- Não cobrir o intracraniano: perde lesão em tandem — cubra até o polígono de Willis.
Checklist rápido
- Função renal/alergia; acesso calibroso; bomba + flush.
- Cabeça neutra e imóvel, braços ao lado; orientar a não engolir; retirar prótese dentária removível.
- Bolus tracking (arco/carótida) para pegar o pico arterial antes da veia.
- Cobrir do arco aórtico ao polígono de Willis; aquisição fina isotrópica.
- Entregar MIP e curved MPR por vaso; medir a estenose (NASCET) ⟂ ao eixo, na fonte.
- Correlacionar sempre com os cortes axiais. A interpretação é do radiologista.
Treine a diferenciar os vasos no Reconstrutor
Seguir a carótida comum até a bifurcação, distinguir interna de externa e achar a vertebral no forame transverso é reconhecimento espacial plano a plano. No Reconstrutor você navega o pescoço em axial, coronal e sagital e reformata oblíquos — o hábito que faz a anatomia dos quatro vasos ficar automática.
Ache os quatro vasos
Abra um caso no Reconstrutor e siga cada carótida e vertebral do pescoço ao crânio, plano a plano. É a prática que transforma o MIP bonito em leitura segura da bifurcação.