Angio-TC coronariana: gating de ECG, escore de cálcio e curved MPR
É a angio mais difícil da TC — o alvo tem 2 mm e nunca para de se mexer. Todo o protocolo existe para congelar o coração no instante certo do batimento e depois desdobrar cada coronária num plano.
A angio-TC das coronárias (angiotomografia coronariana) mapeia as artérias que irrigam o coração — vasos finos e em movimento constante. Fazer isso exige sincronizar a aquisição com o eletrocardiograma (gating de ECG), controlar a frequência cardíaca e reconstruir curved MPR de cada vaso. Este guia mostra a lógica. É material educacional para técnicos, tecnólogos e estudantes: não substitui o protocolo do seu serviço, a orientação do fabricante nem a avaliação médica.
Quando esse protocolo é pedido
- Dor torácica em pacientes com probabilidade baixa a intermediária de doença coronariana — excluir estenose significativa.
- Escore de cálcio para estratificar risco (exame à parte, sem contraste).
- Avaliar anomalias de origem/trajeto das coronárias, pontes (enxertos) e stents.
- Pré-operatório (troca valvar, cirurgia não coronariana) para checar as coronárias.
O escore de cálcio
Antes do contraste, faz-se uma aquisição sem contraste, gated, de baixa dose: o escore de cálcio (Agatston) quantifica a placa calcificada nas coronárias — um marcador de risco. Muito cálcio também atrapalha a angio (o blooming do cálcio superestima estenose), então o escore ajuda a decidir e a interpretar.
Congelar o coração: o gating de ECG
O coração se move; a TC precisa capturar as coronárias na fase mais parada do ciclo (em geral a diástole, ~70–80% do R-R, ou a sístole em frequências altas). O ECG sincroniza a reconstrução com o batimento:
- Gating prospectivo (step-and-shoot): dispara só numa janela do ciclo — dose menor; exige ritmo regular e baixo.
- Gating retrospectivo: adquire ao longo de todo o ciclo e escolhe a melhor fase depois — mais flexível, dose maior.
- Controle de frequência: com FC alta, usa-se betabloqueador (quando não contraindicado) para baixar e regularizar; nitrato sublingual dilata as coronárias e melhora a visualização.
- Apneia e ritmo regular são essenciais — extrassístole vira artefato.
Timing do contraste
Como toda angio, o realce arterial tem que pegar as coronárias no auge: bolus tracking com ROI na raiz da aorta, injeção por bomba, acesso calibroso e flush. O objetivo é opacificar as coronárias sem excesso de contraste no coração direito (que gera artefato de listra).
As reconstruções: curved MPR de cada vaso
As coronárias correm curvas sobre a superfície do coração — nunca cabem num plano reto. A leitura reconstrói, para cada artéria (DA/LAD, circunflexa, coronária direita), um curved MPR (CPR) que desdobra o vaso inteiro num plano, além de cortes transversais perpendiculares para medir a luz e MIP/VR para a visão geral.
Ler as coronárias
- Estenose: comparar a luz no ponto da placa com o segmento normal vizinho; usar o corte transversal ⟂ ao vaso.
- Placa: mole (não calcificada), calcificada ou mista — a calcificada faz blooming e superestima.
- Stent: avaliar a permeabilidade dentro dele (o metal também floresce — kernel/janela dedicados ajudam).
- Anomalias: origem e trajeto (interarterial é o de risco).
Armadilhas comuns
- Frequência alta / arritmia: borra o vaso (artefato de movimento). Controle a FC e garanta ritmo regular.
- Blooming do cálcio/stent: superestima a estenose — correlacione com corte transversal e escore de cálcio.
- Timing errado: realce fraco das coronárias ou artefato do contraste no coração direito.
- Movimento respiratório: a apneia falhou — repita a orientação antes.
- Ler só o curved MPR: ele pode criar pseudoestenose se a linha central sair do vaso — confirme na fonte.
Checklist rápido
- Preparo: checar FC e ritmo; betabloqueador se indicado; nitrato sublingual; treinar a apneia.
- Eletrodos de ECG bem posicionados; escolher gating prospectivo (dose) × retrospectivo (flexibilidade).
- Escore de cálcio sem contraste antes (quando indicado).
- Bolus tracking na raiz da aorta; injeção com flush.
- Reconstruir a melhor fase; entregar curved MPR por vaso + cortes ⟂ + MIP/VR.
- Correlacionar sempre com os cortes-fonte. A interpretação é do radiologista/cardiologista.
Treine o vaso curvo no Reconstrutor
Seguir um vaso que curva no espaço e imaginar o plano que o "estica" é raciocínio espacial puro — a base do curved MPR. No Reconstrutor você navega volumes nos quatro planos e reformata oblíquos, treinando o olho para acompanhar uma estrutura curva de ponta a ponta.
Acompanhe o vaso que curva
Abra um caso no Reconstrutor e siga uma estrutura tubular curva plano a plano, reformatando oblíquos. É o gesto por trás do curved MPR das coronárias.