Angio-TC de membros inferiores: a perseguição do bolus
Um único bolus de contraste precisa iluminar mais de um metro de artéria — da aorta aos pés — enquanto a mesa persegue a onda de contraste descendo pelas pernas. Sincronizar essa corrida é o protocolo inteiro.
A angio-TC de membros inferiores (run-off arterial) mapeia as artérias das pernas em três estações — pelve, coxa e panturrilha/pé — numa aquisição contínua. O desafio é que o contraste desce pelo membro enquanto a mesa avança: se a mesa for rápida demais, ultrapassa o bolus; devagar demais, a veia enche e contamina. Este guia mostra a lógica. É material educacional para técnicos, tecnólogos e estudantes: não substitui o protocolo do seu serviço, a orientação do fabricante nem a avaliação médica.
Quando esse protocolo é pedido
- Doença arterial obstrutiva periférica (DAOP) — claudicação, isquemia crítica, úlcera/pé diabético.
- Planejamento de revascularização (bypass, angioplastia) e seguimento.
- Aneurisma (poplíteo), trauma vascular do membro, embolia.
A perseguição do bolus (bolus chase)
A varredura começa quando o contraste chega à aorta (bolus tracking) e a mesa acompanha a onda descendo pelas pernas — por isso "perseguição do bolus". A velocidade da mesa é casada ao fluxo do paciente: em quem tem estenoses graves o fluxo é lento e o bolus atrasa — pode ser preciso reduzir a mesa ou usar aquisição time-resolved (dinâmica) na panturrilha.
- Estação 1 — pelve: aorta infrarrenal, ilíacas, femorais comuns.
- Estação 2 — coxa: femoral superficial e profunda, poplítea.
- Estação 3 — panturrilha/pé: tronco tibiofibular, tibiais e fibular, arco plantar. É a mais difícil (vasos finos, fluxo lento, contaminação venosa).
Preparo, posicionamento e cobertura
- Decúbito dorsal, pés primeiro, membros estendidos e imóveis; acesso venoso calibroso no braço, bomba + flush.
- Cobertura da aorta infrarrenal (ou diafragma) até os pés, incluindo o arco plantar.
- Aquisição fina isotrópica na fase arterial; muitas vezes uma série sem contraste antes (calcificação de base — importante no diabético).
Reconstruções e leitura
- MIP para o panorama; curved MPR por vaso para estenose e comprimento; cortes transversais ⟂ para medir a luz.
- Remoção de osso ajuda a ver os vasos junto aos ossos da perna e do pé.
- Ler estenose/oclusão, extensão, colaterais e o leito distal (fundamental para planejar bypass).
- Calcificação pesada (diabético/renal) faz blooming no MIP e superestima — meça na fonte / curved MPR.
Armadilhas comuns
- Contaminação venosa na panturrilha: o inimigo nº 1 — fluxo lento enche a veia e polui o MIP. Reduzir a mesa / usar time-resolved.
- Mesa rápida demais: ultrapassa o bolus e as pernas ficam sem realce distal.
- Calcificação pesada: superestima estenose no MIP — curved MPR e fonte.
- Movimento do membro entre estações: imobilize.
- Não cobrir o pé: o leito distal decide a conduta — cubra o arco plantar.
Checklist rápido
- Decúbito dorsal, pés primeiro, membros imóveis; acesso calibroso, bomba + flush.
- Bolus tracking na aorta; velocidade de mesa casada ao fluxo (lento → reduzir / time-resolved na perna).
- Cobrir aorta infrarrenal → arco plantar; ± série sem contraste antes.
- Entregar MIP + curved MPR por vaso + cortes ⟂; remoção de osso.
- Avaliar estenose/oclusão, colaterais e leito distal. A interpretação é do radiologista.
Treine o trajeto no Reconstrutor
Seguir uma artéria que desce e ramifica, plano a plano, e reformatar o oblíquo que a corta perpendicular é o mesmo raciocínio do run-off. No Reconstrutor você navega volumes reais nos quatro planos — o hábito que faz acompanhar o vaso da pelve ao pé sem se perder.
Siga o vaso até o pé
Abra um caso no Reconstrutor e acompanhe uma artéria por vários planos, reformatando oblíquos perpendiculares. É a base para ler o run-off estação por estação.